A vidente da Casa Verde – Por Humberto Mariano

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A vidente da Casa Verde – Por Humberto Mariano

Tem gente que acredita que alguma outra coisa importa no mundo além de Sexo, Poder e Dinheiro. Até entendo a posição desses ingênuos, à espera de recompensa e de salvação, num tempo e lugar que ninguém nunca viu. Afinal, vivem sendo bombardeados pela mídia com propaganda de bancos, de margarinas, de planos de saúde, nas quais tudo funciona perfeitamente: bancos emprestam para pobres, família completa no café da manhã, todos magros, bonitos e saudáveis, hospitais sem filas, médicos e enfermeiras sorridentes e o cliente, digo paciente num confortável apartamento cercado por sua adorável família. Tudo bem parecido com a realidade, não é?

Em religião sou agnóstico, e em filosofia sou cristão. Parece uma inversão, porque Agnosticismo é filosofia e o Cristianismo é religião. Mas o fato que em religião não acredito em nada que não possa ser medido, pesado, cheirado e comprovado. Por outro lado, filosoficamente eu sou cristão, ou seja, aceito os princípios e os ensinamentos daquele rapaz da Galileia, filho de José e Maria, que sumiu entre os doze e os trinta anos, mas quando reapareceu fez um banzé e tanto. Em apenas três anos, mudou a História do Mundo. Faltou registrar a marca e o símbolo, para que não fizessem tão mau uso deles.

Bem, voltemos ao que realmente faz esse nosso mundo andar: Sexo, Poder e Dinheiro. E para ilustrar minha férrea convicção, vou lhes contar uma estória que aconteceu comigo há alguns anos e que contém todos esses ingredientes. É, também, uma estória de Amor, para aqueles, ou melhor, aquelas que acreditam que isso exista. Mas é, sobretudo, a estória de um casal, que não tinha nenhum dos três ou dos quatro elementos e, portanto, eram infelizes. Do alto da minha ignorância filosófica e espiritual, num lance de sorte, tive a oportunidade de mudar suas vidas.

Inicio do século XXI, sábado, hora do almoço. Estávamos, eu e dois amigos, num bistrô ou “north house” do Mandaqui, na Avenida Imirim, acho que no número 2815, enfrentando o melhor baião de dois da cidade. Fazia 34 graus lá fora, 48 graus perto da cozinha, onde ficava nossa mesa e as garrafas de cervejas não paravam de chegar e partir, mais vazias que a biblioteca da Carla Peres. Empanturrado e suado, o Gordito sugeriu uma visita à casa da Dona Ideli, que segundo ele era a rainha da amarração, do descarrego e da adivinhação na Casa Verde Alta. Claro que recusei, mas o outro amigo insistiu. Disse que estava desconfiado da mulher que andava chegando tarde em casa todos os dias, num carro vermelho. Filosofei; “é melhor um tonto em dúvida do que um corno com certeza.”. Mas ele insistiu e nós fomos.
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A Casa Verde Alta é um lugar prá lá de estranho. A sequência dos imóveis era mais ou menos assim: uma casa, um salão de cabelereiro, uma igreja evangélica, um boteco e uma lan house, em seguida vinha uma igreja evangélica, um salão de cabelereiro, uma casa, uma lan house e um boteco e no fim do quarteirão uma lan house, um boteco, um salão de cabelereiro, uma igreja evangélica e uma casa. Em cada janela, uma mulher; em cada portão, uma criança e em cada quintal um vira lata. Os homens todos ficavam nos botecos, as moças nos salões, as velhinhas nas igrejas e os velhinhos nas lan houses assistindo “As Brasileirinhas”.

A casa de Mãe Ideli ficava no final da rua entre uma lan house e um boteco, em frente ao salão de cabelereiro. Mãe Ideli era uma senhora alta, morena, na faixa dos sessenta, feia como a presidenta da Petrobrás e mais mal vestida que figurante de minissérie da Record. Saia florida e rodada, de tecido ruim, turbante verde, blusa vermelha decotada que deixava ver um sutiã preto de lycra, esmalte em tom violeta e o batom vermelho carmim. Era a imagem da charlatanice, mas inspirava mais pena do que raiva. Devia ter sido uma bela mulher há uns trinta anos atrás.

Quando chegamos não havia ninguém e o atendimento foi imediato. Primeiro o Gordito que ficou na sala por uns quinze minutos. Saiu com um sorriso largo – ouviu da vidente que seus problemas estavam por terminar – e um vidro de um remédio para emagrecer. O outro amigo entrou cabisbaixo, pressentindo a tragédia. Saiu quase aos prantos, Mãe Ideli não economizara adjetivos, nem substantivos aquela era uma perdida, uma devassa, uma messalina, parte prá outra. Deu-lhe, também, uma caixa com uma corrente grossa, um cadeado e uma recomendação: Essa só amarrando ao pé da cama, vigiada por um pitbull, fêmea hein, não esquece. E cobrou cem reais por conta dos apetrechos para amarração, no real sentido, da distinta esposa.

Chegou minha vez. Qual o seu pobrema, meu fio? Nenhum. Ocê é que pensa, fio; tô vendo coisa ruim em cima de tu. Olhei prá cima e dei razão à velha. O lustre, com três das quatro lâmpadas queimadas, estava preso por um arame enferrujado. Coisa mandada, mô fio, de inimigo brabo. Nem perdi meu tempo tentando descobrir quem era o mandante. Dei a Mãe Ideli o mesmo crédito que dou ao teste de fidelidade do João Kleber, mas ela não desistiu. Cê vai ter probrema com uma loira e uma branquinha. Bingo, Mãe. Tenho mesmo problemas com as duas há quarenta anos, o fígado está começando a ratear. Não brinca mizifio, seu passado é negro. Bingo de novo, Mãe Ideli, mas estou tomando jeito. Tô vendo aqui suas encarnação do passado, ocê já foi gente importante. É mesmo? Não me lembro. Ocê já foi Aristote. Quem? Aristote, um desocupado lá das Grécia Antiga. Sabe que pode ser; não sou muito chegado a trabalho e gosto de discutir Lógica, Ética e Política. Pena que nunca encontro o Netinho de Paula, o Aguinaldo Timóteo e o Maluf para a gente conversar.

CiganaOcê já foi Júlio Césa. Aquele goleiro frangueiro? Não. O da seleção, então? Também não, mizifio; é homem das antigas, de Roma. Já sei, o Imperador, o Conquistador da Gália. Esse mesmo. Mas ele gostava de meninos. E ocê, não gosta do Neymar? do Messi, do Alexandre? É diferente, Dona Ideli. Naquele tempo era normal, é como roubar hoje. Mas eu nem meus amigos nunca roubamos nada de ninguém. Porque não tivero oportunidade, mizifio.

Aquela conversa estava me desgostando. Que me interessava o passado? Mas a velha insistia em me lembrar do que eu nunca tinha sabido, nem desconfiava e, na qual não punha a menor fé. E eu ainda ia ter que morrer com cinquenta reais para ouvir aquele monte de baboseiras. Duro como sempre e com o dinheiro contado, para pagar a consulta, eu ia ter que cortar dois cinemas, quatro cervejas e o Lance da segunda feira. Muito sacrifício para pouca diversão. Então me ocorreu a ideia que pode salvar essa crônica da mesmice, mas não lhe melhora o estilo.

Deixei a velha falar mais uns minutos. Enquanto isso fingindo meditar, eu dei uma breve cochilada. De vez em quando acordava e ouvia a velha: Herodes, Cesar Borgia, Napoleão, Mussolini… Antes que ela citasse ACM eu dei um basta naquilo. Chega, Dona Ideli, quanto é a consulta? Como uma boa casaverdiana, ela respondeu: um galo. Mesmo sem ter sido Castor de Andrade, em outras eras, eu sabia que o galo era cinquenta. Caro, né Dona Ideli? Mas é a tabela, mizifio, tudo tá pela hora da morte, até os enterros. Definitivamente, eu não estava disposto a pagar por serviços tão desnecessários quanto o Ministério da Pesca, e tão falsos quanto os turcos de Salve Jorge. Mas eu ia dar um jeito naquilo.

Comecei por massagear lhe o ego. A senhora é boa nisso, hein. Se eu pudesse, pagava até o dobro. Podia ganhar muito mais, vender melhor seus serviços. Eu posso ajudar a senhora. Como, mizifio? A senhora precisa de um agente, alguém que a promova, que fale da senhora em todo lugar, que arrume eventos para senhora participar. Já pensou a senhora no Programa do Ratinho? Sua tendinha ia bombar. Os olhos da velha brilharam. E quanto eu vou pagar por tudo isso? Praticamente nada, apenas vinte por cento que é a comissão do agente, uma ninharia perto do que a senhora vai ganhar. E quem vai ser meu agente? Isso pode deixar comigo. Na próxima visita eu o trago, sábado que vem tá bom? E, por falar nisso, quanto é mesmo a consulta? Nada, mizifio, fica por conta da casa, te espero no sábado. Vi um brilho de esperança naqueles olhos vazios de expressão e de encanto.

Outro em meu lugar, teria esquecido aquela conversa e nunca mais voltado á Casa Verde Alta, nem na Média, nem na Baixa; Mas, não se deve brincar com a fé, nem com a esperança dos outros. Uma coisa é não acreditar, outra coisa é desmerecer. E tem mais: meu outro eu, o Aristóteles, me perdoaria por este desvio ético? E Júlio César? Um dos seus amiguinhos podia ser neto daquela velhinha em outros tempos. E Napoleão? Será que a velhinha não teria sido Josefina? Para que provocar? Meu sogro, sábio como todo mineiro do mato, dizia sempre: mais sabe o diabo por ser velho do que por ser diabo.

ChiquinhoPortanto, já na segunda, saí em busca de um agente para Dona Ideli. Claro que ninguém de bom senso aceitaria aquela função, mas gente de mau senso é que não falta no meu querido São Miguel. Quinze minutos de padaria e eu já tinha um candidato a vaga. Jornalista, fotógrafo, colunista social, eterno candidato a vereador, tão duro quanto eu e Dona Ideli, o “Chiquinho, Vai que eu tô indo” era figurinha carimbada, dessas raras que dão de brinde uma televisão LCD. Para o singelo apelido havia duas versões. A publicável dizia que era em razão de ter uma perna mais curta que a outra, Sentado no banco da padaria, baixinho como ele só, na hora de ir embora, enquanto o pessoal levantava, ele tentava colocar uma das pernas no chão e quando acontecia de ser a mais curta, ele, em sua dificuldade, dizia: “vai que eu tô indo”. Acabou pegando o apelido. A não publicável refere-se a um entrevero do Chiquinho com uma das moças da José Otoni, que lhe sentou o braço no terceiro “vai que eu tô indo” que ele lhe dizia naquela noite.” Tenho contas prá pagar, Mané, ou vai de Ford ou sai de Simca”.

Foi mais fácil do que eu previra. Aceitou na hora, tinha conhecidos em todo lugar, não seria difícil aumentar a esquálida clientela de Mãe Ideli. Sábado na hora combinada estávamos na Casa Verde Alta. Foi amor á primeira vista, ele nos seus 35, ela com 62, carentes de amor, portanto sexo, de dinheiro e de poder. Fez mais do que arrumar clientes; tornou-se seu agente, seu guia, seu amante, seu tudo. Vivia pra ela, alojou-se no quarto, cozinha e tenda, onde até então Mãe Ideli, vivia solitária. Amavam-se pela manhã. a tarde, a noite, a qualquer intervalo entre as consultas. Mãe Ideli remoçou, trocou o guarda roupa, afinal a renda das consultas tinha duplicado, Cismou de fazer uma plástica; diminuiu seios e barriga, tirou gordura dos braços, das pernas e do papo. Ficou parecendo ter cinquenta e oito.

Um dia, Chiquinho apareceu na tenda com um figurão da política, deputado de um partido de oposição, cotado para Ministro da Fazenda caso seu candidato ganhasse. Mãe Ideli, bem instruída por seu agente/amante, caprichou nas previsões; falou do PIB, das metas de inflação, da Bolsa de Valores e do resultado das próximas eleições. No ano seguinte, o figurão voltou com buquê de rosas e tudo. O partido não ganhara a eleição, mas Mãe Ideli tinha acertado tudo, inclusive isso. Ele lhe fez um convite para ser candidata. Chiquinho exultou a fez aceitar. Tornou-se chefe e tesoureiro da campanha; inundou a Zona Norte de cartazes, faixas e santinhos. Bingo. Veio a eleição e Mãe Ideli não só ganhou, mas arrastou com ela mais uns três ou quatro deputados para a Assembleia.

Chiquinho virou chefe de gabinete, mudaram da Casa Verde Alta para o Jardim São Bento, sobrado grande, garagem para seis carros, jacuzzi e ar condicionado. Mas Mãe Ideli não deixava de dar suas consultas, afinal o expediente na Assembleia, vocês sabem, não era lá muito puxado. Sua clientela é que mudou. Agora eram políticos, artistas, socialites, subcelebridades, jogadores de futebol, e outros desse quilate, que pagavam caro para ouvir ouviam as mesmas bobagens que consolavam os despossuídos da Casa Verde Alta.

Num sábado à tarde, apareceu um sujeito barbudo, cercado de assessores. Mãe Ideli já o conhecia, até tinha votado nele algumas vezes, mas ele nunca ganhava. Vinha pedir conselhos, se devia tentar de novo, tentar outro cargo ou desistir. Mãe Ideli mandou todos saírem da antessala, queria sigilo absoluto daquela conversa. Mas, pela primeira vez pediu que “Vai que eu tô indo” assistisse a consulta. Conversaram três horas. Chiquinho botou pra fora suas ideias, vinte anos guardadas. Inventou de distribuir dinheiro pros pobres todo mês, de três refeições por dia prá todo mundo, de criar uma tal de classe C que viveria com um celular num bolso e dez carnês no outro, uma boa mesada para deputados e nada de invenções na Economia. Mãe Ideli não quis cobrar nada, o barbudo saiu pulando de alegria. No inicio de 2003, Ideli tomou posse no Senado, o seu amigo barbudo virou presidente. Lá conheceu outra amiguinha do barbudo, ficaram mais que amigas, confidentes, e em 1º de Janeiro de 2011, Dona Ideli tornava-se a Ministra da Pesca e Chiquinho “Vai que eu tô indo” descolou uma Diretoria da Caixa Econômica Federal. E viveram felizes para sempre, com Sexo, Poder e Dinheiro. Precisa mais?

Humberto Mariano, paulistano, classe média baixa, prestamista das Casas Bahia, do Extra, da Marabráz e das Lojas Americanas. Como Guido Mantega, não sabe calcular juros, nem entende o que é inflação. Otimista por convicção, fã de filmes de guerra, espera ganhar um dinheiro na Copa 2014 levando turistas japoneses para o Itaquerão, recebendo antecipado e deixando-os lá para vingar Pearl Harbor.