A Redentora Começou em Santos (cont.)

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A Redentora Começou em Santos – Por Humberto Mariano

DiarioLogo no primeiro livrinho que folheei notei uma relação dos deputados federais que já tinham utilizado aquele gabinete. Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Mario Covas, Paulo Maluf, Luis Inácio e….. Athiê Jorge Coury entre outros. Deixei o livro, fui ao banheiro privativo e enquanto pensava na vida notei uma saliência no forro do banheiro. Era uma tampa de madeira que cobria um buraco que levava ao interior do forro. A curiosidade me fez subir numa cadeira, remover a tampa e, inadvertidamente, enfiar a mão lá dentro. A mão esbarrou numa pequena e empoeirada caixa, que eu puxei e trouxe para fora. Colocada na mesa do deputado, passei a vasculhar a tal caixa. Papéis velhos, cópias de discursos, alguns projetos e um livro preto. Ao abrir, uma grande surpresa: um diário escrito pelo deputado Coury entre os anos de 1962 e 1965. Em letras cuidadosamente caprichadas, uma ortografia e gramática impecáveis, o deputado contava detalhes de sua vida pessoal, esportiva e política. Chamou-me a atenção um período em que a letra do deputado se tornara tremida a denunciar tensão e nervosismo de quem escrevia. Era exatamente o mês de Março de 1964.

Dia 3 de Março, Hotel Parque Balneário, suíte 907, encontro com o embaixador americano a pedido dele”. Conversa tensa, sem rodeios. “É verdade que o senhor recebeu uma proposta por Ele? Sim, por quê? De quem? Mas o que lhe interessa isso? Tudo interessa ao governo dos Estados Unidos da América. Dos russos, por quê? O porquê não lhe interessa, quanto foi? Quinze milhões de dólares e um terço do território da Romênia. Mas o que vocês fariam com um pedaço da Romênia? Sei lá, também perguntei isso a eles? Seja lá quanto o que for vocês não podem e não vão aceitar. Isso é um problema da Diretoria do clube, não nos sujeitamos a pressões. É a sua última palavra? É. Então, passar bem e arque com as consequências. Bom dia”

Dia 12 de Março, Rio de Janeiro, Palácio das Laranjeiras, audiência com o Presidente João Goulart. “É verdade que o senhor recebeu uma proposta por Ele? Sim, dos russos, quinze milhões de dólares e um terço da Romênia. Já deu a resposta? Não, preciso antes consultar o Conselho e a Diretoria. Pois bem, vamos melhorar essa proposta? Vamos, por quê? O que o senhor tem a ver com isso? Para que vocês iam querer parte da Romênia, troque por caças MIG 21? E o que nós faríamos com os MIGs? Não servem para nossas excursões. Preciso de 6 MIGs para nossa Força Aérea. Sim, e o que o Santos tem a ver com a Força Aérea? É uma questão de segurança nacional, Sr. deputado. (audiência interrompida pelo ajudante de ordens).

PalacioLaranjeirasDia 13 de Março, Rio de Janeiro, Palácio das Laranjeiras, 17 horas. “Pensou no assunto, deputado? Pensei, não vamos vender. O senhor está louco? São quinze milhões de dólares e a oportunidade de ajudar o Brasil. O senhor cuida do Brasil e eu do Santos. O senhor sabe quem me ligou? Não. Kruschev. O que ele queria? Pressionou pela venda e aceitou a troca pelos MIGs. Ainda assim, não me interessa. Não brinque com coisa séria deputado. Vou levar o assunto à Diretoria. E eu ao Conselho de Segurança Nacional. Passe muito bem”.

Dia 15 de março, em casa, 21 horas: Telefonema do embaixador americano. “O senhor esteve com seu presidente na sexta feira”? O senhor está bem informado, embaixador. Trataram daquele assunto? Sim. Qual a posição do Presidente? Ele é pela venda aos russos. E o senhor? Talvez tenha que aceitar, a pressão é grande, embaixador. Isso agora é conosco, dê um jeito de sumir com Ele por um tempo. Maldito Goulart, vermelho fdp. Respeite nosso presidente, senhor embaixador. Por enquanto, senhor deputado, Good night.

Dia 24 de março, em casa, 21,30 horas, telefonema de Jango. “O senhor falou com o embaixador americano? Senhor Presidente, sempre bem informado. O que ele disse? Se a gente vender, eles vão intervir. Pois, que venham; vou acionar meu dispositivo militar. Cuidado, Presidente, eles tem aliados aqui. Dois ou três generais de pijamas, não se preocupe. Mantenha-me informado. Boa noite.

Dia 26 de março, em casa, atendo o telefone: Mr. Coury? Yes, who’s speaking? Lindon Johnson, the president of USA. Good evening, Mr Presidente. Good evening, Mr Coury, I have a proposal. About? About Him, of course, don’t sell Him. Why? If the Russians get Him, they will dominate the world. But, He’s only a soccer player. No, Mr. Coury, He’s the West symbol. We can’t lose Him. We pay any money. How much? Twenty millions of dollars and we keep Joao Gilberto here for more ten years. Good proposal, but I have to think about. Deadline, March 30. No pressure, please, Mr Presidente. March 30, Mr. Coury, no more a day. Good night.

Dia 27 de Março, outro telefonema de Jango: Deputado, temos que responder a Kruschev. Não vou vender. Por quê? Quer mesmo saber a verdade? Quero. Eles deporão o senhor, no dia seguinte à venda. Não acredito, são bravatas do embaixador americano. O Presidente Johnson falou comigo; eles vêm mesmo; fiquei de resolver até dia 30. Está resolvido, o senhor vai vender. Mas Ele está machucado. Coisa grave? Ainda não sabemos, mas não é coisa simples. Onde Ele está? Recolhido em Santos, vinte dias de repouso. Venda-o assim mesmo, depois é problemas dos russos. Não sou um escroque, Presidente. Mas é um deputado, é a mesma coisa. Eu não. Assunto encerrado, vou ligar para Kruschev e fechar o negócio. Mas o senhor não manda no Santos. Santos é Brasil, deputado. Até mais.

Dia 28 de Março, em casa, 22,15 ligo para Lula, o nosso técnico. “Preciso de um favor seu O senhor manda, Presidente. Tire-O do time. Não posso, Presidente, temos que ganhar o Rio São Paul, já encaçapamos o Corinthians e o Fluminense, amanha é o Vasco, outra barbada. Eu sei, mas você tem que me ajudar. Mas, Presidente, o que eu vou dizer para Ele e para a imprensa? Invente qualquer coisa, estafa, miopia, etc. Não dá, o Negão tá voando. Eu preciso, depois te explico; é questão grave e importante, envolvendo os russos, os americanos, o Presidente Goulart, a Força Aérea e a Romênia Vou ver o que posso fazer, Presidente. É uma ordem, Lula. Tá bom, deixa comigo”.

Dia 30, nove da manhã, ligação do embaixador Gordon: “Johnson quer a resposta. Vou vender. Foi por isso que Ele não jogou ontem? Foi. Já viajou? Ainda não. É a última palavra? É. Sinto pelo senhor, deputado e por todos os brasileiros. O Santos perderá cinco milhões de dólares; vamos mandar João Gilberto de volta para vocês aturarem enquanto ele viver, mas quem perderá mesmo é o povo brasileiro. No mínimo, vinte anos de sombras e escuridão. Vocês vão tomar a Light de volta? Não, deputado, pior que isso. Até breve.

As anotações do mês de Março no diário terminam com a transcrição desse último dialogo com o embaixador. Durante todo o mês de Abril, somente duas anotações: Dia 2 de Abril: “Os yankees não estavam brincando. o simpático, mas teimoso Goulart já era. Kruschev não ligou mais e João Gilberto desembarcou no Galeão.. Para nós nem quinze, nem vinte milhões de dólares, nem um naco da Romênia, muito menos os MIGs, mas Ele continua nosso”.

DitaduraA última, dia 26; “Depois de vinte dias de repouso, Ele voltou ontem contra o Botafogo, fez gol, ganhamos e garantimos o bi do Rio-São Paulo, mesmo se perdermos para o Flamengo sábado. Mas não estou feliz. Agora entendo o embaixador: os anos de escuridão, sombras e chumbo chegaram”.

Humberto Mariano, economista brasileiro, formulador da Teoria das Improbabilidades, segundo a qual no dia em que José Sarney abdicar do trono maranhense e de suas 12.000 indicações no Governo Federal, a Rainha Elisabeth aceitará o convite da Mangueira para ser destaque de carro alegórico e tema do enredo – Betinha, do palácio ao morro, uma mulher do povo.

Imagem 1: diário.
Imagem 2: Palácio das Laranjeiras.
Imagem 3: Anos de Chumbo.

Imagem 4: deputado e pastor Marcos Feliciano fazendo esforço para pensar.

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