A Redentora Começou em Santos

0
664

A Redentora Começou em Santos – Por Humberto Mariano

LincolnNos primeiros dias de Março de 1964 o embaixador norteamericano Lincoln Gordon desembarcou sigilosamente na Base Aérea de Santos. Ao pé da escada da aeronave uma limusine preta já o esperava com o motorista e segurança já embarcados. Seguido por um automóvel com outros três agentes, o carro seguiu velozmente para o centro da cidade, parando no subsolo de um edifício antigo, de estilo neoclássico, pintado de branco com frisos azuis, sede do Parque Balneário Hotel, hoje transformado num horrendo shopping na Avenida Ana Costa. Os seguranças bloquearem o elevador permitindo que o embaixador fosse direto a suíte 907 no nono andar, sem ser visto por nenhuma outra pessoa.

Lá, de terno preto, camisa branca, gravata vermelha com listras transversais azuis, sapato pretos impecavelmente lustrosos, com seu ar de lorde vitoriano, o esperava o deputado federal Athiê Jorge Coury. Conversaram por noventa minutos, alternando tom e volume de voz frequentemente. Por cinquenta anos o segredo daquela conversa se manteve. Nenhuma palavra, enquanto ambos viveram. Ao retornar a Brasília, o embaixador fez um informe secreto à Casa Branca, que resultou numa ordem do então Presidente Johnson de iniciar os preparativos para a operação Brother Sam. Toda a frota americana do Atlântico Sul deveria dirigir-se para a costa brasileira, em estado de alerta, aguardando ordens de desembarque.

No dia 12 de março de 1964, quinta feira, Coury foi chamado ao Rio pelo Presidente João Goulart. Tiveram uma conversa rápida nesta mesma tarde e o presidente pediu-lhe que pernoitasse na cidade para continuarem a conversa no dia seguinte. Às 17,00 horas da sexta feira, o deputado entrou no gabinete presidencial do Palácio das Laranjeiras. Por mais de uma hora, trancados e a sós, discutiram asperamente, segundo alguns funcionários da Presidência que estavam na antesala. A conversa só foi interrompida porque, pelo interfone, o Presidente foi alertado de seu compromisso seguinte: um comício na Central do Brasil. Mesmo profundamente irritado, o presidente convidou o deputado Coury a lhe acompanhar. Este declinou do convite, o que parece ter irritado ainda mais a Jango, que saiu vociferando “Hoje eu boto prá quebrar”. No carro, percebendo a irritação do Presidente, o oficial ajudante de ordens atreveu-se a perguntar o teor da conversa que tanto lhe irritara. O olhar gélido e furioso do Presidente o fez calar. Nunca se soube, por cinquenta anos, o teor daquela discussão.

Na terça feira, dia 17 de Março, Athiê foi a São Paulo para uma reunião na Federação Pauiista de Futebol. Não era seu costume ir, mas naquele dia Modesto Roma estava acamado e não podia ir. Detestava aquelas reuniões, os grosseiros erros de Português do presidente Mendonça Falcão, as explosões de Delfino Fachina, o desconsolo de Wadih Helou e a apatia de Laudo Natel. Na última reunião em que comparecera fora cobrado insistentemente pelos outros presidentes em razão dos altos prêmios que concedia a seus jogadores. Também pudera. Desde Junho de 61, seus jogadores tinham ganhado todos os torneios oficiais que disputaram, dez no total. Faltaram apenas o Rio- São Paulo de 62, que não disputou e o Campeonato Paulista de 1963, disputado em meio a Libertadores e ao Mundial, que acabaram ganhando. Além disso, arrecadavam milhares de dólares em suas excursões pelo mundo todo. Sabia recompensá-los, afinal eles eram os artistas. Não estava disposto a fazer concessões, porém aceitaria o convite de Wadih Helou para assistir com ele, na tribuna de honra do Pacaembu, o jogo daquela quarta feira, abertura do Torneio Rio-São Paulo, nova oportunidade para o Corinthians livrar-se de sua sina de sempre perder para o Santos. A reunião foi melhor e mais rápida do que ele esperava. O convite veio, ele aceitou e, de imediato, retornou a sua cidade.

Esteve no Pacaembu na quarta feira. Assistiu, como de hábito, um baile de seu time, consolou Wadih Helou pelos três a zero, foi ao vestiário, cumprimentou seus jogadores, deu um abraço n’Ele por mais um gol e voltou para seu lar. Nos dias seguintes retomou sua rotina, mas evitou Brasília. Nunca foi um deputado dos mais assíduos, mas agora tinha ainda mais razões para não ir a Capital. Ainda não engolira a irritação de Jango.

LulaEntre os dias 20 e 28 de março, recebeu várias ligações, mas fez apenas uma. No dia 28 ligou para a casa do técnico Lula as dez da noite. Jamais em 10 anos de clube, Lula havia recebido uma ligação do presidente. Seus contatos restringiam-se a breves diálogos no vestiário, sempre após as partidas. Nunca lhe ocorreu ouvir do presidente uma sugestão de escalação. E talvez não tenha siso este o caso. O fato é, por cinquenta anos, nunca se soube o teor da conversa entre os dois. Em junho de 1972, internado na Santa Casa de Santos, recuperando-se de um transplante de rim, já praticamente em condições de voltar para casa, tentou contar a história a seu filho, mas a entrada de uma enfermeira o fez calar. Três horas depois o velho Lula morria em circunstâncias não totalmente esclarecidas, sendo que a última pessoa que o viu vivo foi a tal enfermeira, cujo nome era Juliana Medici da Costa e Silva.

EnfermeiraEm Dezembro de 1992, na mesma Santa Casa de Santos e pelos mesmos problemas renais, partia o deputado Athiê Jorge Coury, presidente do Santos de 1945 a 1971. Em Janeiro de 1993, a enfermeira Juliana requereu sua aposentadoria e mudou-se para os Estados Unidos. Obteve o seu green card menos de dois meses após sua entrada nos EUA e conseguiu uma colocação no Departamento de Estado em Washington. Nunca mais voltou ao Brasil.

Vocês devem estar se perguntando: se nenhuma dessas conversas ou reuniões vazou nos últimos cinquenta anos, nenhuma menção na imprensa, mortos os principais envolvidos, como elas vem sendo mencionados por um obscuro escriba de um desambicioso blog paulistano? Teria ele mantido um caso com a enfermeira Juliana numa de suas viagens à América? Teria ele se valido da paixão que Dona Dulce Figueiredo devotava a cabelos grisalhos e lhe arrancado segredos da caserna e do palácio? Nada disso, sábio leitor, esperta leitora. Vamos a segunda parte, que lhes conto tudo. Tenham paciência.

No final do último Dezembro, ciente das minhas recorrentes dificuldades financeiras, um amigo prometeu-me arrumar um bico. Em Fevereiro a oportunidade apareceu. Ele conseguira que eu fosse o “ghost writer” de um deputado federal em primeiro mandato. Segundo ele, um deputado jovem, democrático, com mente aberta, ponderado, comprometido com novas ideias, um jovem que iria sacudir o marasmo de Brasília. Embora não ache que a vida em Brasília seja um marasmo, exceto nas segundas, terças, sextas, sábados e domingos, entendi que não estava em condições de recusar. Perguntei-lhe o nome do deputado. “Pastor Marcos Feliciano”, respondeu ele. “Mas logo um pastor, você sabe que eu sou agnóstico, isso não vai dar certo”. Vai sim, nem precisa comentar sobre isso, vocês vão se dar muito bem. Só precisa ir uma vez por semana em Brasília, daqui mesmo você escreve e envia prá ele”. E assim se fez. Mandei cópia dos documentos para a Capital e em três dias estava nomeado assessor parlamentar do deputado Marcos Feliciano a quem nunca tinha visto na vida. Fiquei de ir a Brasília na primeira semana de Março para o primeiro contato, embora já tivesse direito ao salário de Fevereiro. Coisas do Congresso.

FelicianoExatamente no dia do meu embarque para Brasília li nos jornais que o pastor deputado havia sido eleito (ou indicado, sei lá) para a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Fiquei superfeliz. Agora sim, escreveria com prazer; defender os direitos das minorias, exaltar a união civil entre pessoas do mesmo sexo; pugnar pela liberação do aborto, propor ações afirmativas para os negros, os pobres, os homossexuais, os corintianos presos na Bolívia e, quem sabe, criminalizar os que insistem em rotular os são-paulinos, gente da maior virilidade. Era tudo o que eu queria no meu sonho de mudar o Brasil.

Do aeroporto de Brasília, no taxi em direção a Câmara, vi uma manifestação de gente alegre e colorida marchando no mesmo sentido que eu. Pensei, estão indo prestigiar a posse do deputado na Comissão. Afinal, um pastor evangélico, homem temente a Deus, só poderia pregar a igualdade, a fraternidade e a solidariedade entre os seres humanos independente de sua raça, gênero ou orientação sexual. Ao chegar, a confusão já estava formada. Centenas de jornalistas a porta do gabinete querendo ouvir o deputado, outra turma querendo invadir o gabinete e lá no fundo da sala um sujeito de terno preto, com cara de abobado, repetia que fora mal interpretado, que era difamação etc. e tal. Pressenti que era o tal deputado e me dei conta do enrosco em que tinha me metido. Do meu tablet fiz o que devia ter feito há semanas: uma busca no Google e lá apareceram algumas frases do meu agora chefe. Ao lê-las, quase morri de vergonha, meu primeiro impulso foi voltar para o aeroporto, telefonar para o meu amigo e dizer-lhe um monte de desaforos. Mas não deu tempo. Aquela massa que eu vira no caminho acabara de chegar e o tempo fechou. No tumulto e pancadaria que se seguiu fui empurrado para dentro do gabinete antes que fossem trancadas as portas. O deputado deve ter escapado por uma passagem secreta porque não o vi mais. Seus asseclas seguiram-no e eu me vi sozinho trancado no gabinete, enquanto lá fora a patuleia urrava. Resolvi relaxar, havia seguranças na porta e ali os manifestantes não entrariam.

Acompanhe amanhã o desfecho dessa eletrizante história…

Humberto Mariano, economista brasileiro, formulador da Teoria das Improbabilidades, segundo a qual no dia em que José Sarney abdicar do trono maranhense e de suas 12.000 indicações no Governo Federal, a Rainha Elisabeth aceitará o convite da Mangueira para ser destaque de carro alegórico e tema do enredo – Betinha, do palácio ao morro, uma mulher do povo.

Imagem 1: presidente João Goulart com o embaixador norteamericano Lincoln Gordon.
Imagem 2: técnico Lula, do Santos.
Imagem 3: enfermeira
Imagem 4: deputado e pastor Marcos Feliciano fazendo esforço para pensar.