O Capitão era Santista

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O capitão em São Miguel – Por Humberto Mariano

19 de março de 1971, meio da tarde de uma sexta-feira, um calor asfixiante em São Paulo. Sentado na última mesa do fundo de um “pé sujo” na Rua Helvétia, eu, ouvia encantado, o chefe contar suas estórias. Alguma delas já tinha ouvido uma centena de vezes, mas isso não mudava em nada o prazer de escutar. Bastava-me o orgulho e a honra de estar em sua companhia. Eu de frente para as demais mesas, o balcão e a porta. Ele, de costas, para tudo e para todos.

Pudera. Era o mais procurado do Brasil naquele momento. Metade do efetivo do Segundo Exército, com aquelas temíveis Chevrolet Veraneio, percorria toda a cidade em seu encalço, dia e noite. O Delegado Fleury declarara à imprensa que há 15 dias não dormia, nem ia para casa e não iria enquanto não o pegasse. Era o primeiro e mais destacado nos cartazes que a repressão espalhara por toda a cidade. Desertor, traidor, assassino frio e sanguinário, diziam os cartazes, mas o sujeito que estava á minha frente, com um copo de cerveja, bebia calmamente e rememorava seus feitos. Só naquela semana havíamos expropriado três bancos, dois supermercados e trocado tiros com uns investigadores “pés de chinelo” do 13º Distrito Policial na Santa Cecília.

Conto no plural com certo exagero. Eu nunca estive na linha de frente. Era apenas um olheiro, encarregado de vigiar as esquinas e criar um tumulto qualquer para atrasar a chegada da polícia, caso esta aparecesse. Aquela tarde de sexta-feira no bar era o meu momento de maior glória na organização. De manhã, estava cumprindo uma importante missão: levar pão e leite para um aparelho na Rua Albuquerque Lins. Não sabia e nem perguntava quem estava escondido ali. Na maioria das vezes, batia na porta, deixava os produtos e saia antes que abrissem a porta.

Na verdade, no papo do bar, ele rememorava a semana, apenas para exercitar-se para os próximos embates. Não exibia orgulho, nem vaidade pelo que fazia. Achava que era sua obrigação, acreditava naquilo e, independente dos métodos, o importante era manter a resistência á ditadura e aos gorilas imperialistas. Eu também acreditava em tudo aquilo e almejava subir na organização. Quando cheguei ao aparelho de manhã, tomei coragem e esperei abrirem a porta. Quem veio abrir foi ele mesmo. Já o tinha visto de longe algumas vezes em plena ação, mas ainda assim causou-me forte impressão. Alto, bastante magro, já barbeado, parecia mais um professor secundário que um perigoso terrorista, o mais exímio e letal atirador do Exército Brasileiro até 1969.

Estava só e me convidou para tomar café com ele, enquanto ouvia as notícias do dia num rádio ABC de caixa, já antigo para o início dos anos 70. 2h de conversas, repletas de planos, que ainda ali não me pareciam apenas sonhos. O Brasil que ele queria era muito parecido, quase igual, aos meus ideais de adolescente. Discordava apenas quando ele dizia ser necessário suprimir, pelo menos por algum tempo, as liberdades individuais, a partir do novo regime que seria implantado após a nossa vitória. Nada que abalasse minha admiração pelo herói.

Por volta do meio-dia, me ofereci para ir buscar o almoço. Surpreendentemente, ele quis ir junto. Não entendi, mas quem era eu para contestar-lhe a vontade. Explicou que estava cansado de não ver o sol, de não andar pelas ruas. As ações não duravam mais que alguns minutos entre descer do carro, agir e voltar para o carro. O restante do tempo passava escondido, com janelas e persianas fechadas, em minúsculos apartamentos, que a imprensa chamava de aparelhos. Vestiu-se de forma a parecer mais gordo, colocou os óculos fundo de garrafa e um bigode postiço. Um problema surgiu: como esconder a semiautomática da qual não se desgrudava? Naquele calor sair de sobretudo ou paletó era muita bandeira. No bolso da calça ela ficaria visível e guardar na meia era coisa de amador. Sabia que não teria a menor chance, contra atiradores profissionais, se tivesse que abaixar para pegar a arma. Na mochila ou numa sacola ela não serviria para nada num encontro com os “homi”. Sabia que não o queriam preso, queriam-no morto.

Optou pelo meio termo, colocou-a por dentro da calça por fora da cueca. Desconfortável para andar, mas de fácil acesso numa emergência. Em dez minutos estávamos no “pé sujo” da Rua Helvétia. Escolhemos a mesa mais escondida e ele recomendou que eu não tirasse o olho da porta enquanto conversássemos. Para evitar que o garçom viesse muitas vezes à mesa fui ao balcão e pedi a cerveja e o tira gosto. Começamos a conversar, enquanto bebíamos. O garçom voltou umas três ou quatro vezes para nos abastecer, mas não prestou muita atenção em nada. Com o tempo e as cervejas, o capitão foi se descontraindo, contando seus causos e rindo á vontade. Aí quem começou a ficar preocupado fui eu. Mais meia hora de cerveja e o capitão ia subir no balcão e gritar contra a Revolução.

Era hora de sair dali. Mas como cortar o barato do capitão? Tive uma ideia totalmente maluca. Capitão, vamos para São Miguel. Para onde? São Miguel Paulista capitão, o meu bairro. Onde fica? Zona leste extrema, periferia brava, lá ninguém mexe com a vida de ninguém e eu conheço um bar de japoneses que tem o melhor quibe e a melhor caipirinha de São Paulo. O capitão se animou, pegamos a São João, o Anhangabaú, a Praça Antônio Prado, a Ladeira Porto Geral e, finalmente, o Parque Dom Pedro. 1h de ônibus e descemos na antiga São Paulo – Rio a 200 metros do Estudantil.

Sabia que ali era impossível bater papo a dois, ainda mais numa sexta-feira de verão, final de tarde. O jeito era enturmar o capitão com quem lá estivesse. De cara, na chegada, na porta principal, meu amigo, investigador de polícia, futuro delegado, um tremendo boa praça, mas mais de direita do que de esquerda. Ao seu lado, outro grande amigo: o anarquista do bairro, o sujeito mais avesso ao trabalho que eu conheci em toda a minha vida. Eram os fregueses mais assíduos, verdadeiros ativos fixos daquele bar e por quem as menininhas do Dom Pedro suspiravam. Tão diferentes e tão iguais no gosto pela discussão seja lá sobre o que fosse.

Recomendei ao capitão que não iniciasse uma discussão sobre qualquer assunto com nenhum dos dois. Que concordasse com tudo porque não havia como vencê-los numa discussão a não ser que o capitão sacasse a arma e, mesmo assim havia o risco dele receber o primeiro tiro. Recomendei, ainda, que se declarasse santista, para impor certa superioridade, especialmente sobre o corintiano, que era o maior perigo naquela situação. Sentamos os quatro á mesa, mais cervejas, agora com caipirinha, quibes e moelas. O papo engrenou, o capitão se entusiasmou, o investigador se soltou, o anarquista foi em casa dar uma bola e voltou. Eu cada vez mais preocupado, aquilo não ia dar certo.

Uma hora não aguentei, tive que ir ao banheiro. Quando voltei a desgraça já estava feita. O anarquista puxou o assunto e começou a meter o pau no Médici. Disse o diabo do ditador, falou poucas e boas. O investigador pelo menos para manter as aparências pediu que ele maneirasse. Não maneirou e ainda trouxe o capitão para o seu lado na discussão. Eu, desesperado, já me via no pau de arara da 22ª enquanto aguardavam o pessoal do Segundo Exército chegar. O capitão citou Fidel, Marx, Mao, Prestes, o anarquista vibrava, o investigador espumava e eu, nas calças, obrava.

Salvou-me o japonês de plantão no balcão. Com um berro mandou parar a bagunça, que falassem baixo e que não tocassem em política. Do contrário, ia todo mundo para fora nem que fosse na porrada. Santo japonês. Devo-lhe a vida, provavelmente, e o capitão lhe ficou devendo os seis meses que viveria a mais além daquele dia. O assunto mudou para futebol, o investigador corintiano não tinha muito o que dizer, o anarquista são-paulino ainda tentou alguma coisa, mas contra dois santistas em 1971 não havia nada o que argumentar. Como de hábito as sextas-feiras, depois das 18h o bar lotou, malandro junto com trabalhador.

E no meio, o capitão, reclamando que o bar era bom, a comida boa, o japonês simpático, o investigador bacana, o anarquista fenomenal, mas que lugar mais sem graça, sem mulher. Em 17 de Setembro de 1971, quando morreu assassinado no sertão da Bahia, o Capitão Carlos Lamarca ainda trazia no bolso, o que guardara como souvenir de sua inesquecível passagem por São Miguel, o pedaço de papel com a conta daquele dia que ele fez questão de pagar: 32 cervejas, 12 quibes, três porções de moela, 14 caipirinhas. Na verdade tomamos 12, duas o japonês sempre somava na conta. Acho que era por conta do couvert artístico, afinal o que mais tinha ali era artista e tudo de primeira.

Ah, ia me esquecendo. Quando invadimos o quartel do Segundo Exército em abril de 72, me esgueirei até a sala do comandante, General Humberto de Souza Mello, recuperei esse pedaço de papel e o tenho guardado até hoje. Antes de sair, pichei o retrato do Médici que estava na parede. Isso nem o anarquista teve peito para fazer.

Imagem extraída do blog Pimenta com Limão

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Ricardo Roca
Formado em Comunicação Social e pós-graduado em Administração de Empresas, ambos os cursos pela ESPM, atualmente cursando mestrado em Linguística. Professor universitário, sócio da Roda Fiandeira, consultor nas áreas de comunicação e marketing e apaixonado por futebol e arte.

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