Ética boleira e Melindres

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As vezes os boleiros apresentam comportamentos bem estranhos. Isso embaralha os conceitos e deixa muita gente confusa. Explico: no último domingo, Jorge Henrique, do Corinthians, no final do jogo, quando o título de seu time já era mais que provável, deu um “chute no vácuo”, finta normalmente praticada por Valdívia, do Palmeiras, que havia sido injustamente expulso, diga-se de passagem. Os jogadores do Verdão sentiram-se desrespeitados e “foram pra cima”, e não é necessário descrever o que ocorreu.

Outros lances “parecidos”: as embaixadinhas (muito mal feitas por sinal, além de terem sido feitas pertinho do banco de reservas de seu time, provavelmente por medo) de Edilson na final do Paulistão-99, as pedaladas de Robinho (e de vários outros), a reboladinha de Edmundo, então no Vasco, diante de Gonçalves, do Botafogo, Viola imitando o porco, Paulo Nunes e suas máscaras e várias outros. Todos já geraram debates acalorados sobre desrespeito com os colegas de trabalho, foram chamados de humilhação e, quase que invariavelmente, terminaram em pancadaria em campo.

Penso que há um GRANDE equívoco aqui. Sou capaz de entender que um jogador, no calor da disputa, perca a cabeça diante de um lance assim. Veja bem, eu não disse que aceito, mas que entendo. Violência nunca será justificada.

Vamos avaliar as coisas com isenção? Uma disputa esportiva envolve superar o adversário e, para isso, são usados recursos técnicos, táticos, físicos e, obviamente, emocionais. Ninguém discute que quando um sujeito (Materazzi) supostamente diz alguma coisa para outro (Zidane) sobre sua irmã ou sua família, na final da Copa de 2006, ele está sendo anti-ético. Mas passar o pé sobre a bola, chamar o adversário pro confronto, dar um chapéu e olhar com deboche pro rival, pedalar, rebolar, fazer um gol de calcanhar (Tulio, no Botafogo, contra Universidad Católica do Chile) são recursos que não estão fora das regras. São absolutamente legítimos e talvez sirvam sim para desestabilizar o adversário, o que faz parte do jogo. Qual o problema? Se acharmos que isso está errado, Garrincha deveria ter sido banido do futebol e logo adiante vamos ter que proibir sequências de dribles ou olhares debochados.

Se um jogador sentiu que seu adversário quis humilhá-lo, redobre sua energia e empenho e tome a bola dele; vença o jogo e depois devolva os olhares debochados… sem violência. Como dizem, a melhor vingança é ser feliz.

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Ricardo Roca
Formado em Comunicação Social e pós-graduado em Administração de Empresas, ambos os cursos pela ESPM, atualmente cursando mestrado em Linguística. Professor universitário, sócio da Roda Fiandeira, consultor nas áreas de comunicação e marketing e apaixonado por futebol e arte.