Homem com H

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A gente cresce ouvindo um monte de bobagens, do tipo “homem não chora” ou coisas do gênero. E é justamente uma questão de gênero o tema de hoje. Se o mundo todo é machista, o Brasil é machista e os brasileiros são machistas, o universo do futebol é ainda mais. Pois um mineiro de Belo Horizonte deu uma das maiores demonstrações de sensibilidade e amor que alguém pode dar. Na verdade, o que ele fez me parece até óbvio, natural para quem tem um filhos e os ama. Aqui mesmo eu já mencionei, mais de uma vez, minha pequena Ceci. No entanto, o preconceito entre jogadores, torcedores e até entre parte da crônica é tão grande que algo que vá contra essa situação merece destaque e crédito. Toninho Cerezo, craque do futebol brasileiro deu declaração a respeito de toda a polêmica criada em torno da carreira e da opção sexual de seu filho Leandro, que se transformou no travesti Léa T e faz sucesso no mundo da moda, como estilista e modelo. Léa já disse que planeja mudar de sexo.

“A paternidade é livre de qualquer padrão, de qualquer critério imposto pela sociedade, filho deve ser aceito na sua totalidade, na sua integral condição de vida, independentemente da sua orientação sexual”, disse Cerezo.

Xico Sá, mal-diagramado cronista da Folha de São Paulo, fez sua crônica de ontem falando sobre o tema, comparando a elegância de Cerezo em campo a de Léa nas passarelas e mencionando uma carta aberta do craque publicada na revista Lola desse mês. Separei um trecho que resume bem o assunto e mostra também a elegância de Xico com as palavras:

E pouco importa que a carta de Toninho Cerezo sirva de exemplo ou não contra o machismo no esporte. Seja no futebol ou no rúgbi. A beleza está no manifesto público de devoção pela sua criatura. Ninguém é obrigado, em nenhuma circunstância, a demonstrar abertamente o amor ou desamor paterno. Pode-se muito bem resumir o afeto ou o incômodo à convivência, aos muros da privacidade. Cerezo dividiu com todo mundo o carinho pela filha. Deixou claro que não há desgosto da sua parte. “Menino ou menina, Leandro ou Lea, não importa mais, sempre serei seu pai e você, orgulhosamente, um pedaço de mim”, caprichou na carta aberta.

É surpreendente como em pleno século XXI ainda exista tanto preconceito e recalque. Viva a vida!

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Ricardo Roca
Formado em Comunicação Social e pós-graduado em Administração de Empresas, ambos os cursos pela ESPM, atualmente cursando mestrado em Linguística. Professor universitário, sócio da Roda Fiandeira, consultor nas áreas de comunicação e marketing e apaixonado por futebol e arte.