Antônio Lopes, o Delegado. Já foi pedra, mas hoje em dia é vidraça

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Quem vê o técnico Antônio Lopes hoje, um camarada comedido, tranquilo e que mede tudo antes de falar ou agir, nem imagina como ele era em início de carreira. Homem que construiu uma carreira brilhante na Polícia Civil, chegando ao cargo de Delegado; Lopes, ao entrar no mundo do futebol no meio dos anos 70, como auxiliar de preparação física no Vasco, levou para dentro do campo o estilo linha-dura que caracterizava os homens da lei no período da ditadura militar. Até o seu jeito de falar durante as entrevistas era caracterizado por uma voz arrastada e até mesmo debochada em alguns momentos. Mas nada que desvalorizasse a grande figura humana que sempre foi. Pela mudança no temperamento, pode-se dizer que Lopes já foi pedra, mas hoje em dia é vidraça.

Começou sua carreira de técnico no Olaria em 80, passou pelo América e em 1981 voltou ao Vasco, já na nova função. Em São Januário, no seu clube de coração, iniciar-se-á aí a mais bela carreira que um treinador escreveu no clube da Colina; superando até mesmo Gentil Cardoso e Flávio Costa, ambos do Expresso da Vitória.
AntonioLopes
Vou contar aqui uma passagem com o Antônio Lopes, o Delegado, em um Vasco x Olaria, na Rua Bariri em novembro de 1985. Pois bem, o Vasco tinha Roberto Dinamite, Acácio, Romário, Geovani, Edvaldo (saúde de cavalo) lateral direito; Newmar (zagueiro), Paulo César (lateral-esquerdo), os dois vieram do Grêmio, e um ponta-direita, o Santos, que substituíra Mauricinho, lesionado. Os times entraram em campo, soltaram-se fogos etc.. O campinho da Bariri lotado. O árbitro era José Roberto Wright. Dia de quarta-feira à tarde. Jogo típico de subúrbio. Torcida do Vasco em peso. Logo, Roberto Dinamite fez 1 a 0. Foi aquela festa. Aí, tinha um negão na arquibancada parecido com o Urco do Planeta dos Macacos e que estava comendo camarão e tomando cerveja, mas que queria ficar somente sentado. Quando o Vasco atacava e a torcida levantava, ele gritava para todo mundo sentar e todos atendiam. Afinal de contas, de um negão daquele tamanho ninguém queria discordar, e o “SEEEEEEENTA” que ele gritava em alto e bom som, intimidava qualquer um mais audacioso que quisesse desobedecer……. Porém, o time começou a jogar mal. O Olaria apertando, apertando. Até que empatou na metade do segundo tempo. Das sociais da Rua Bariri começaram a soltar fogos e gozar a torcida do Vasco. Uns três ou quatro gatos pingados fazendo isso. A torcida do Vasco se revoltou e começou a perseguir o time. O Paulo César era o mais visado, pois jogava na lateral em que se situava a torcida. “Fora Paulo César, Fora Newmar. Fora Geovani”… aí o negão gritou “FORA LOPES”……Quando o negão gritou, foi a senha e a torcida se inflamou. Todo mundo gritando fora Lopes fora Lopes…. E o Estádio da Rua Bariri naquela hora parecia La Bombonera, em Buenos Aires. Uma verdadeira panela de pressão prestes a explodir. O taxímetro estava ligado, quanto mais tempo levasse para desempatar mais cara seria a corrida. Quando os jogadores do Vasco iam bater córner ou lateral, no lado do campo em que estava a torcida, a galera cuspia maribondos em cima deles. Do banco do Vasco, que também era naquela faixa, Antônio Lopes ouvia toda a sorte de impropérios sobre a decência da senhora sua mãe, mas mantinha-se calado. Aí, em um contra-ataque, Santos desempatou para o Vasco. Foi aquela alegria, saiu do sufoco. Um senhor de meia-idade, que estava ao meu lado, gritava, furibundo, em direção às sociais do Olaria: “Solta fogos agora seus f…”. Quando tudo se acalmou, o time já tocando a bola e administrando o resultado, eis que o mesmo negão se levantou pela primeira vez, se encostou na grade e gritou: AÍ LOPES, HEM? O Delegado, então, perdeu as estribeiras, se levantou do banco e foi em direção à grade. Mas, quando ele viu o tamanho do negão, tipo armário duplex de 12 portas, tentou dar uma meia recuada. Em uma fração de segundos, eu percebi a situação e gritei para o Delegado: “O quê que tem que ele é grande? O elefante também é grande mas não é o dono do circo!!!!” Aí, Lopes se encheu de moral de novo, disse cobras e lagartos pro negão, chamou ele pra briga, e tudo o mais. E o negão, bem rindo do outro lado da grade: “Poxa, Delegado, pra quê isso?” E o Lopes deu com a mão para trás, passando a mesma por cima da cabeça e voltou para o banco rindo também. Afinal, o Vascão ganhou, era só alegria. Nem preciso dizer que antes que o negão me identificasse, eu joguei dez contos no viado e sumi. Acabou Vasco 2 a 1.

Sergio Macedo, 53 anos, casado, praticante de corrida, carioca, católico, vascaíno e portelense, formado em Administração de Empresas e Análise de Sistemas pelas Faculdades Nuno Lisboa, RJ. Assim como Romário, nascido no bairro da Vila da Penha. Apaixonado por futebol e samba. Apreciador da boa gastronomia mas também de uma cerveja gelada acompanhada de um bom churrasco de alcatra. Autodidata em Jornalismo Esportivo, sendo discípulo de João Saldanha, Luiz Mendes e Sandro Moreyra. Não cursou Faculdade de Jornalismo, porque essa seria feita durante o período da ditadura militar e seus pais temiam que sua total aversão aos militares, que sempre teve, lhe causasse problemas.

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