Memórias Futebolísticas: Sérgio Macedo

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Bangu x Radar – Futebol Feminino – 1983 – Confusão Generalizada

A briga ocorrida na partida entre Veneza e Montenegro, em agosto de 2015, no Campeonato Feminino de Futsal do Acre me remeteu ao ano de 1983, quando da partida Bangu x Radar, decisão do Campeonato Carioca de Futebol Feminino. Cheguei a conhecer, posteriormente, o juiz da partida, o oficial da Marinha Ricardo Durans.

Mas, antes de nos ater ao jogo em si, vamos falar resumidamente, para aqueles que não o conhecem, sobre Castor de Andrade. Assim, entenderão a essência da crônica.

CastorReiCastor foi o mais famoso e, também, poderoso, bicheiro do Brasil. Era o bicheiro do tipo romântico, que não admitia que o tráfico de drogas fosse explorado em conjunto com o jogo. Castor transitou com prestígio e desembaraço pelo poder. No governo militar diversos generais lhe dedicaram atenção especial, a ponto de um secretário de Segurança do Rio de Janeiro daquela época, o general Waldir Alves Muniz, ter recebido instrução para “evitar problemas com Castor de Andrade”. E o ex-presidente João Figueiredo quebrou o cerimonial certa vez, afastando-se do grupo de autoridades que o cercava e indo pessoalmente cumprimentar o bicheiro.

Castor
Tinha as duas paixões de todo bom carioca da gema: futebol e samba. Mais especificamente, Bangu Atlético Clube e GRES Mocidade Independente de Padre Miguel. Era patrono de ambas as duas instituições. Injetava dinheiro do próprio bolso para o sucesso delas. O Bangu foi campeão carioca de 1966 graças ao forte time que ele bancou. Bem como foi vice-campeão carioca e brasileiro em 1985 pelo mesmo motivo. Castor é ainda hoje tido como o mais emblemático personagem da Zona Oeste do Rio. É verdadeiramente endeusado em Bangu e Padre Miguel, terra de onde dirigia seu império.

Como dizia João Saldanha, vida que segue…. Voltando ao Bangu x Radar. Nesse ano de 1983, o Bangu montou pela primeira vez um time de futebol feminino para disputar o respectivo campeonato da Federação. O time mostrou garra e conseguiu chegar à final contra o famoso time do Radar.

A decisão seria em três partidas. A primeira foi ganha pelo Radar por 1 a 0. O Bangu devolveu o mesmo placar na partida seguinte. A decisão foi, então, para o terceiro jogo, realizado em Moça Bonita, Estádio do Bangu, no dia 12 de outubro.

A torcida compareceu em peso para empurrar as meninas banguenses, mas o Radar fez 1 a 0 com um gol de Valéria, no primeiro tempo. Aos 35 minutos da etapa final ocorreu o lance fatal: numa bola centrada sobre a área do Radar, uma das zagueiras do time azul e amarelo cortou o passe com a mão, num pênalti claro, que o juiz Ricardo Ferreira Durans fingiu que não viu. Foi neste instante que o jogo virou uma confusão. As jogadoras do Bangu partiram para a briga com o árbitro, alguns torcedores invadiram o campo, e Castor de Andrade, auxiliado por seus “leões de chácara” também foi tirar satisfação pela penalidade não marcada. O Estádio de Moça Bonita virou uma verdadeira praça de guerra. Enquanto o juiz Ricardo Durans era vítima de socos e pontapés dos seguranças de Castor e das jogadoras do Bangu, as jogadoras dos dois times também trocavam tapas. A meia-esquerda Rosa, do Radar, fraturou o maxilar inferior. O Radar ganhou o jogo por 3 a 0.

O trio de arbitragem acabou tendo que se refugiar dentro do vestiário e só pode deixar o estádio uma hora e meia depois do tumulto e ainda assim protegidos pela Polícia Militar. O ônibus do Radar foi apedrejado e totalmente destruído. No dia seguinte, os jornais estamparam a manchete: “Novo nome do Estádio de Moça Bonita: Coliseu”!

Outros, mais irônicos, disseram que Castor de Andrade levou tanto leão de chácara para o campo do Bangu, mas tanto leão, que mais parecia o “Simba Safári”…

Apesar da gravidade dos fatos, a pilheria da imprensa foi tanta que chegaram a dizer que o juiz que apitou Bangu e Radar jogou no bicho no dia 12 de outubro, botando 200 cruzeiros no leão. Uma pena, deu galo na cabeça… literalmente.”

Nesse mesmo ano o Radar foi campeão brasileiro em uma decisão contra o Goiás, onde ganhou por 5 a 0. No final do jogo também houve briga generalizada, com diversas jogadoras expulsas.

Sergio Macedo, 53 anos, casado, praticante de corrida, carioca, vascaíno, portelense, formado em Administração de Empresas e Análise de Sistemas pela Faculdades Nuno Lisboa, RJ. Apaixonado por futebol e samba. Autodidata em Jornalismo Esportivo. Sendo discípulo de João Saldanha, Luiz Mendes e Sandro Moreyra. Não fiz Faculdade de Jornalismo, porque essa seria feita durante o período de ditadura militar e meus pais temiam que a total aversão aos militares que sempre tive causasse problemas.

Texto escrito especialmente para o Blog Futebol-Arte!