Brasil 4 x 0 Argentina

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Quebraram a chave da gaiola
e os quadros-negros da escola.

Rebentaram enfim as grades
que os prendiam todas as tardes.

Nos fugitivos, é a surpresa,
vendo que tomaram-se as rédeas

(dos técnicos mudos, mas surpresos,
brancos, no banco, com medo).

Estão presos os da outra gaiola,
que não souberam abrir a porta:

ou que não o puderam, contra o jogo
dos que estavam de fora, soltos.

De certo também são capazes
de idênticas libertinagens

uma vez soltos porém, como
se liberar daquele tronco

em que os aprisionaram os táticos
argentinos, também gramáticos.

E enquanto os fugitivos seguem
com a soltura, a sem lei que os regem,

nos bancos é uma a indignação
dos que vão vencendo e dos que não:

“Voltamos ao futebol de ontem?
Voltou a ser um jogo dos onze?

Voltou a ser jogo de pião?
Chegou até cá a subversão?

Como é possível haver xadrez
Sem gramática, bispos, reis?”

João Cabral de Melo Neto

#futebolepoesia