#AgoraÉQueSãoElas – Por Fernanda de Lima

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O Blog Futebol-Arte também participa da campanha #AgoraÉQueSãoElas, em que colunistas homens cedem seus espaços para mulheres; quem dá o recado hoje é Fernanda de Lima.

Por que vocês querem inserir a mulher no esporte se não estão dispostos a discutirem com ela?

Eu sou jornalista e trabalho com esporte. Logo, para os homens, sou obviamente uma mulher que gosta de esportes. Logo, uma mulher que gosta de futebol. O que é verdade, de fato.

Nas minhas andanças por aí, após adotar essa como a minha profissão, percebi um comportamento – ou seria preferência – comum: todo homem se interessa por uma mulher que gosta de futebol. Até a página dois.

Essa constatação vem acompanhada de outra: nenhum homem gosta de se sentir ameaçado.

Num universo histórica e culturalmente masculino, a mulher que domina o futebol em 2015 ainda é uma intrusa no território masculino.

Em dado momento, todo homem, raríssimas exceções, vai se sentir ameaçado por uma mulher que goste, entenda e discuta futebol.

Eu ouço muita mulher do meio esportivo dizer que não sente preconceito por ser mulher nesse meio. Mas eu sinceramente acredito que muitas fazem vista grossa para o assunto, ou que achem algumas atitudes tão normais que não as encaram como preconceitos.

“Uma forma de combater o preconceito é não falar sobre ele.” Talvez. Porém, como não falar sobre ele quando ouvimos que “o lugar de mulher é na cozinha” ou ser questionada sobre a regra do impedimento?

Quando eu ouço que sou “a mulher perfeita” porque gosto de futebol, eu paro pra pensar:

“Será que sou a mulher perfeita porque gosto de futebol ou porque gosto de futebol e não vou encher o saco para ir num churrasco de família num domingo de Brasileirão?”

E digo isso por que?

Porque não sou só uma mulher que gosta de futebol, e como muitas que gostam são muito além disso.

Nós somos geralmente mulheres que lutam, que tropeçam, que falham uma, duas, três, quantas vezes forem necessárias para chegar aonde queremos chegar. Antes de sermos mulheres que gostam de futebol somos profissionais competentes, com a certeza de que resolveremos o problema, ainda que não o resolvamos.

Como diria Clarice Lispector “esclarecida é a mulher que se instrui. Que é companheira do homem e não sua escrava”.

Sim, mas até agora só tenho dito pensamentos avulsos, talvez por um revolta pessoal. Há algum tempo participei de um debate sobre futebol em que eu era a única mulher da mesa. E opinamos sobre assuntos relacionados ao futebol. Talvez não tenha sido nem intencional mas sim algo que já está enraizado na cabeça do homem, mas todos eles retrucaram toda e qualquer opinião que verbalizei.

Tudo bem, já estou acostumada com isso. Já cansei de ouvir “você escreve muito bem para uma mulher” ou “só poderia ser mulher mesmo para falar isso” em minhas colunas sobre F1, um universo machista tão agressivo quanto o do futebol.

E tudo bem mesmo você discordar. Não temos realmente que concordar com a opinião uns dos outros.

Mas se passaram alguns meses e todas – absolutamente todas – as minhas previsões – não baseada em chutes, mas em quem estava por dentro do assunto – se concretizaram. Talvez apenas uma série de coincidências. Mas se concretizaram.

E eu lembrei deste debate e da forma debochada que alguns deles discordaram das minhas opiniões. E se isso fosse um meme da vida real, eu diria: “o jogo virou, não é mesmo?”.

Fernanda de Lima, há 10 anos dedicando-se ao meio esportivo, com enfoque em mídias sociais e produções audiovisuais. É criadora do portal http://guiadosesportes.com.br/. Palmeirense e multimídia, tem certeza que ainda vai mudar o mundo, e talvez mude.

Os textos e charges publicados na categoria CONVIDADOS, apresentam e refletem a opinião dos mesmos, não necessariamente alinhando-se com a do Blog Futebol-Arte. Sua publicação tem o propósito de apresentar diferentes pontos de vista e estimular reflexões e debates.

#agoraéquesãoelas

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Ricardo Roca
Formado em Comunicação Social e pós-graduado em Administração de Empresas, ambos os cursos pela ESPM, atualmente cursando mestrado em Linguística. Professor universitário, sócio da Roda Fiandeira, consultor nas áreas de comunicação e marketing e apaixonado por futebol e arte.