O refúgio dos canalhas

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Essa semana recebi uma foto antiga, que me emocionou muito. A imagem do começo dos anos 50 mostra meu Yayo (avô em catalão) acenando de um navio que partia de Barcelona, para onde ele jamais retornou, em direção a América do Sul, em busca de uma vida melhor para si e para sua família.
YayoPartida
Dá pra afirmar que ele e centenas de milhares de europeus se refugiaram no Brasil, assim como japoneses, coreanos, judeus, bolivianos, haitianos etc. etc. etc..

Esse blog já abordou o tema em Rasteiras da Vida ou Uma bola para o menino sírio e é difícil aceitar que a migração gere tanta polêmica, uma vez que quase todos os povos do mundo em algum momento de suas histórias já partiram em busca de oportunidades em outras terras. No nosso caso, a não ser que você seja descendente de índios, também é migrante.

SELEÇÃO RECUSADA
Foi também essa semana que o lateral-direito Rafinha, do Bayern de Munique, recusou a convocação para a seleção brasileira. O jogador, que atua há 11 anos na Alemanha e tem dupla cidadania, pretende defender a seleção daquele país. Informações dão conta de que por já ter atuado em competições oficiais da FIFA nas seleções de base do Brasil, ele não poderá atuar por outro selecionado nacional.

Parte da imprensa, esportiva ou não, e dos cronistas das redes sociais já malham sem dó o atleta. Ele não foi o primeiro e provavelmente não será o último. Dá pra formar um bom time com jogadores que já recusaram a seleção brasileira por preferirem atuar por outras seleções ou por “motivos pessoais”.

Goleiros: Paulo Vitor (ex-Flu) pediu dispensa do pré-olímpico de 87; Taffarel pediu dispensa no final dos anos 90;
Laterais: Leandro (ex-Fla), antes da Copa de 86, em solidariedade a Renato Gaúcho; Leonardo, por perder a braçadeira de capitão para Cafu; Serginho (ex-Milan); Zé Roberto, que ainda come a bola no Palmeiras recusou convocação para a Copa América de 2007; Mário Fernandes (ex-Grêmio), alegando estresse emocional;
Volantes: Mauro Silva, recusou convocação para a Copa América de 2001;
Meias: Arílson (ex-Grêmio), fugiu da concentração no pré-olímpico de 96;
Atacantes: Careca, durante as eliminatórias de 94; Julinho Botelho recusou convocação para a Copa de 58; Diego Costa (atualmente no Chelsea) preferiu atuar pela seleção espanhola na Copa 2014; Amauri, para defender a seleção italiana;

São muitos os que chegaram a se naturalizar e alguns até a atuar por outras seleções: Deco, Liedson e Pepe; Portugal; Marcos Senna e Thiago Alcântara, Espanha; Eduardo da Silva, Croácia; Cacau, Kurányi e Paulo Rink pela Alemanha; Thiago Costa, Sormani, Filó e Mazzola, Itália; Alex Santos, Túlio Tanaka, Wagner e Ruy Ramos, Japão; Araújo e Sheik, Catar. A lista é enorme.

PATRIOTISMO
“O patriotismo é o último refúgio do canalha”. Nelson Rodrigues era um ótimo frasista e, ainda que alguns atribuam a frase a ele, Samuel Johnson, escritor e pensador inglês que viveu no século 18, é o verdadeiro autor da frase. Millôr Fernandes adaptou-a e acrescentou: “O patriotismo é o último refúgio do canalha. No Brasil, é o primeiro”.
PatriotismoSelecao
Se o objetivo for fazer uma análise futebol brasileiro realmente é necessário refletir, diferenciar caso a caso e avaliar as situações recentes (Diego Costa e Rafinha) do ponto de vista da desvalorização da nossa camisa. “Vestir a amarelinha” já não desperta o mesmo desejo de antes? Qual a razão disso?

No mais, quanta bobagem! Por que a preocupação com as escolhas dos outros? Como torcedor até dá pra entender algum resmungo: “ah, não quer?”, “prefere a Alemanha?”, “então vá e não volte”, mas como ser humano, que cada um faça suas escolhas e seja feliz.

Que todos tenham efetivamente oportunidades iguais e quem tem competência que se estabeleça!

Lugar Nenhum – Titãs