Janela – Por João Gabriel

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Por definição, janela é muita coisa.

Parece impossível, mas o dicionário Houaiss, por exemplo, apresenta nada menos que 17 acepções, desde a óbvia “abertura ou vão na parede externa de uma edificação”, passando pelo querido ” intervalo na grade de horário das aulas ministradas em uma instituição de ensino”, até o executivo “bolso de cima do paletó” que confesso que desconhecia.

Entretanto, no futebol, janela é o momento em que se criam expectativas ou se destroem sonhos. O livre mercado atuando na sua máxima potência capitalista, quando o futebol se resume apenas a uma bolsa de valores e o jogador à mercadoria. Valor de uso, valor de troca, especulações… tudo isso que se aprende das noções básicas de economia serve para perceber que, cada dia mais, a nossa pelada é apenas motivo para xeques, cartolas e empresários ganharem dinheiro às custas de nossa paixão.

Seja por bem, seja por mal, não há como negar a importância deste momento para os clubes. O novo Neymar pode acabar indo para a Europa mesmo antes de estrar pelo seu clube, o velho ídolo meio manco pode estar voltando, o lateral meia boca pode estar chegando para compor elenco, seu time pode ser desmantelado ou continuar na mesma draga que foi o ano passado. Assim sendo, vamos ao que se pode dizer sobre os paulistas.

O quase rebaixado Palmeiras contratou o Midas do futebol brasileiro, Alexandre Mattos e com ele já se fala em 16 reforços, talvez mais. Desde o técnico até o banco, o antigo Palestra reformulou tudo, inclusive a política de contratações. O dono do dinheiro, o presidente Paulo Nobre, percebeu que só entende de economia e chamou alguém (Mattos) para saber o que fazer com suas moedas. Contratou em quantidade e em qualidade também, trazendo jogadores como Zé Roberto e Arouca. O perigo é achar que magicamente, apenas com dinheiro e boas contratações, se constrói um time de futebol: o maior desafio dos palestrinos será ter a paciência necessária para entender este primeiro momento. Por fim, ainda resta saber o buraco financeiro que o clube pode estar cavando. Apesar de ser dos poucos clubes que não adiantou cotas de televisão e ter um programa de sócio torcedor que gera receita considerável, a dívida com o atual presidente não é pequena, pois foi ele quem quase sozinho bancou o clube nos últimos anos e continua a emprestar dinheiro atualmente.

No maior rival, a história é outra. Estando as eleições próximas, o clube vive um momento de brigas políticas tanto entre oposição e situação, quanto dentro da própria situação. Tal disputa não só tange, mas perfura a esfera do futebol pois se enfrentam modelos de gestão diferentes. O presidente Mário Gobbi é cauteloso e não quer o que o clube não tenha condições de pagar. Já Andrés Sanchez, que ainda goza de grande força política dentro do clube, é da linha de gastar agora e depois dar um jeito de pagar. A briga já fez o clube ficar muito próximo de jogadores como Dudu, mas não conseguir fechar e agora ter que amargar ver o atacante no Palmeiras. Já que o presidente não quer gastar, os fieis torcedores correm o risco de ver Guerreiro escapar por entre os dedos, o que seria um desastre já que, além de ter sido fundamental no Mundial, é o principal jogador da equipe desde então. Como brinca amigo meu, deviam dar o Parque São Jorge para pagá-lo. Mas a cautela financeira não é atoa. Se a situação já é complicada, o presidente vê cada vez mais próxima a data de vencimento da próxima parcela do estádio sem nem ter metade do dinheiro em caixa.

Outro clube que vê seu futebol preso de sua política é o Santos. O dinheiro de Neymar realmente parece ter sumido, um verdadeiro mistério. Menos de dois anos após a saída do craque, a debandada de jogadores é causada por salários atrasados e brigas judiciais. Para piorar, a sucessão de mandatários se deu no meio da janela, o que deixou o antecessor sem tempo suficiente para fechar qualquer negócio e o sucessor quase sem projeto algum. Isso sem contar a incompetência que levou o clube até este ponto lamentável. O peixe se afoga por sua própria incapacidade de nadar no mar do futebol, mesmo tendo nos últimos anos a maré a seu favor.

O São Paulo, por sua vez, vai conseguindo separar as duas coisas. Na política Aidar rompeu com Juvenal e os dois brigam dentro do clube para ver se um ficará ou se o outro retornará ao poder. Se Juvêncio era o rei das vendas, conseguindo negócios incríveis como Douglas no Barcelona, além de Lucas, Aidar aparece como esperto comprador: desde que entrou trouxe Michel Bastos de graça, Kaká só pelo salário, Kardec em bom preço, Souza em troca, além de apostas boas como Cafu e Thiago Mendes. Com uma base sólida de vice campeão brasileiro, Muricy Ramalho teve seus desejos atendidos e hoje tem dos melhores elencos do Brasil. Com opções em todos os setores, o clube só corre atrás de contratações pontuais para fechar o escrete. Se Ganso mantiver o nível, Luis Fabiano também e a defesa acertar, a demanda por títulos tem grandes chances de ser atendida.

Mas não há dinheiro que pague a beleza do futebol. Enquanto vemos o mundo dos negócios tomar conta da peleja, resta ser saudosista e lembrar um tempo que não era assim, quando a poesia caminhava livre pelos campos e não só no pé de um ou de outro que, apesar da grana preta, consegue nos encher os olhos. Infelizmente, quase nenhum aqui no Brasil, mas isso já é de novo culpa do dinheiro.

João Gabriel, 18 anos, passou em Jornalismo de primeira e em Letras com emoção. Escreve sobre futebol e esportes em seu blog O Bololô (http://obololo.wordpress.com), desde 2012. Em 2014 passou a fechar meses em Futebol-Arte.

Os textos e charges publicados na categoria CONVIDADOS, apresentam e refletem a opinião dos mesmos, não necessariamente alinhando-se com a do Blog Futebol-Arte. Sua publicação tem o propósito de apresentar diferentes pontos de vista e estimular reflexões e debates.