Histórias da História do Futebol: Na América, muito antes dos europeus: o futebol

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Nas Américas, Muito Antes dos Europeus: O Futebol – Por João Gabriel

Pelo jeito a Terra continua girando e estou aqui de novo fechando o mês do Futebol-Arte.

Antes, tentei convencer a tudo e a todos que o futebol tinha surgido no Oriente.

Menti. Pasmem, mas existe outra possível origem para o futebol, distinta, continentalmente distante. Estamos falando da América Central, aqui em cima, pero milhares de anos atrás.

Evidências de bolas (que datam de até 1600 a.C.) foram encontradas em locais sagrados de culturas antigas, do sul da América do Norte ao norte da América do Sul, e existem ruínas dos campos onde o jogo era praticado. Jogo? Mas, que jogo? Sobre as regras é difícil dizer com certeza: como a colonização destruiu muito das culturas pré-colombianas, todas as evidências levantam dúvidas, criando especulações até sobre o local onde o jogo surgiu. No que se acredita ser o primogênito, o campo era retangular e a bola, de borracha.
CampoLatino
Desta matriz, muitos outros surgiram. Em alguns, o objetivo era atravessar o campo com a bola, em outros, acertá-la dentro de um aro. Mas eles eram criativos: uma das variações não permitia deixar a bola cair, na outra usava-se bastões e na mais extraordinária, os jogadores não podiam usar as extremidades do corpo. Diga que eles criaram o rugby, beisebol, o basquete ou até que copiaram os chineses: discordo. Após longa e cautelosa análise, concebi que tudo não passava de um churrasco monumental, com peladas até o Sol raiar. Enfim: hipóteses, teses.

Mas algo em comum entre os jogos já era encontrado desde as primeiras evidências: estavam estreitamente ligados à religião. Sabe-se, por exemplo, que em muitas culturas o jogo era seguido de um sacrifício. Não existe consenso: alguns antropólogos dizem que os derrotados eram assassinados, mas outros dizem o contrário, que eram os vitoriosos, pois só eles eram suficientemente dignos de serem oferecidos aos deuses. Quase tão brutal quanto a colonização espanhola. Quase.

Tepantitla_mural_Ballplayer_B_CroppedPara os Astecas, o jogo simbolizava a batalha entre a deusa Coyolxauhqui, representada na lua e nas estrelas, contra o deus Huitzilopochtli (“beija-flor”), representado no Estado e na guerra e cujo símbolo era o Sol. Este jogo-ritual, era disputado no sagrado campo Teotlachco (que significa “campo de jogo da bola sagrada”), na capital asteca Tenochtitlan. Este mesmo campo era palco de diversos rituais sagrados, dentre eles o sacrifício de homens em oferenda ao deus Huitzilopochtli. Para eles, a bola de borracha era símbolo da fertilidade. Certa feita o rei espanhol Carlos V mandou trazer um grupo de jogadores para uma apresentação particular. Tremendo estrategista, este rei: enquanto hóspedes batiam bola, hospedeiros dizimavam um povo.

Os Maias, por sua vez, guardam-nos uma história belíssima. O jogo estava relacionado, simplesmente, à manutenção da ordem cósmica e à regeneração da vida. O jogo é citado, inclusive, no livro sagrado maia Popol Vuh, que também aborda temas de menor importância como a criação do mundo, dos homens, dos deuses…

Conta a história que os senhores do Xibalba (o Inframundo) se aborrecem porque os irmãos gêmeos Hun Hunahpu e Vucub Hunahpu (filhos dos deuses Ixpiacoc e Ixmucané) jogavam bola na superfície terrestre. Ocorre que os senhores induzem os irmãos a jogar bola no campo do Inframundo, arrancam suas cabeças e os enterram sob o campo (tais senhores acabam de se juntar à dinastia Ming da China, na lista de vizinhos chatos que você não vai querer ter). Inclusive, as palavras campo e cemitério são sinônimos na língua maia.

Entretanto, os Gêmeos Heróis, filhos de Hun Hunahpu, encontram o equipamento de jogo do pai, voltam a jogar e consequentemente a perturbar Xibalba. Assim como pai e tio, os Gêmeos Heróis são atraídos para ir ao campo do Inframundo. É introduzido nosso coadjuvante: o mosquito. Você, que só reclama dele, reveja seus conceitos: sem ele talvez não tivéssemos mundo, muito menos futebol! Os lordes do Inframundo fazem os dois Gêmeos passarem por desafios mortais, dos quais escapam com ajuda do inseto, que zumbindo e mordendo revela e atrapalha os planos senhoriais. Os Heróis (lembre-se que eles só estão vivos graças ao mosquito) são convidados para jogar contra os lordes no campo do Inframundo, mas levam sua própria bola (regra nº 1 da pelada: o dono da bola manda). Resumindo a história, os Gêmeos bons de bola saem atrás (tudo parte do plano para enganar os senhores), mas depois vencem o jogo, porque de virada, é mais gostoso. Dois dos senhores são assassinados pelos Heróis, que depois tornar-se-ão Sol e Lua.

Por toda sua importância cultural e mitológica, os campos pré-colombianos eram enormes e toda a população assistia as disputas, não pelo jogo em si, mas pelo significado. Contudo, também era praticado fora destes campos como forma de diversão e distração, inclusive por mulheres. É para se pensar: em suas origens, ocidental ou oriental, o jogo era praticado por mulheres. Se seguir pesquisando, verá que tudo passa pelos europeus: o jogo chinês virou grego, depois romano, italiano, francês, até os ingleses criarem o futebol e o rugby; já o pré-colombiano foi extinto por estes mesmos europeus. Após longa passagem pelo velho continente, o futebol voltou para cá e para a China, mas excluindo as mulheres, que lutam pelo seu espaço no que agora virou um negócio-esporte.

João Gabriel, 18 anos, passou em Jornalismo de primeira e em Letras com emoção. Escreve sobre futebol e esportes em seu blog O Bololô (http://obololo.wordpress.com), desde 2012. Em 2014 passou a fechar meses em Futebol-Arte.

Os textos e charges publicados na categoria CONVIDADOS, apresentam e refletem a opinião dos mesmos, não necessariamente alinhando-se com a do Blog Futebol-Arte. Sua publicação tem o propósito de apresentar diferentes pontos de vista e estimular reflexões e debates.

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